PSICODIAGNÓSTICO E TRATAMENTO INTERDISCIPLINAR NA PERDA DE PESO: EVOLUÇÃO DE UM CASO COM OBESIDADE SEVERA
Autores:
Autores: Andrés Eduardo AGUIRRE ANTÚNEZ¹, Jacqueline SANTOANTONIO², Fernanda DE PAOLA³, Thaís Cristina MARQUES DOS REIS⁴, Moema BARBOSA SOARES⁵
Resumo
Este estudo apresenta o seguimento clínico e projetivo/perceptivo de um paciente com obesidade severa ao longo de um tratamento interdisciplinar, utilizando o Rorschach no Sistema de Avaliação por Performance (R-PAS) e desenhos de livre expressão como instrumentos de investigação da personalidade. O objetivo foi analisar mudanças subjetivas, estruturais e relacionais ao longo de dois anos de acompanhamento. Observou-se progressiva reorganização psicológica expressa por indicadores perceptivos de pensamento, afetividade, autoimagem e vínculo, bem como transformações qualitativas nos desenhos. A integração entre psicodiagnóstico, psicoterapia, acompanhamento nutricional e práticas corporais favoreceu maior integração emocional, melhora da imagem corporal e ampliação de recursos simbólicos. Os achados evidenciam a sensibilidade do R-PAS para detectar mudanças sutis em processos subjetivos complexos e destacam o valor da clínica interdisciplinar na compreensão e tratamento da obesidade severa.
Resúmen
Este estudio presenta el seguimiento clínico y proyectivo/perceptivo de un paciente con obesidad severa a lo largo de un tratamiento interdisciplinario, utilizando el Rorschach en el Sistema de Evaluación por Performance (R-PAS) y dibujos de libre expresión como instrumentos de investigación de la personalidad. El objetivo fue analizar cambios subjetivos, estructurales y relacionales a lo largo de dos años de acompañamiento. Se observó una progresiva reorganización psicológica expresada por indicadores perceptivos del pensamiento, la afectividad, la autoimagen y los vínculos, así como transformaciones cualitativas en los dibujos. La integración entre psicodiagnóstico, psicoterapia, acompañamiento nutricional y prácticas corporales favoreció una mayor integración emocional, una mejoría de la imagen corporal y la ampliación de recursos simbólicos. Los hallazgos evidencian la sensibilidad del R-PAS para detectar cambios sutiles en procesos subjetivos complejos y destacan el valor de la clínica interdisciplinaria en la comprensión y el tratamiento de la obesidad severa.
Introdução: A obesidade severa constitui um problema crescente de saúde pública e mental, associada não apenas a comorbidades físicas, mas também a transtornos emocionais, deterioração da imagem corporal, baixa autoestima e estigmatização social. A obesidade é definida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença crônica complexa cujo acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal representa um risco à saúde, com índice de massa corporal igual ou acima de 30. Apresenta-se como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de diversas outras doenças, como cardiovasculares, diabetes e câncer (World Health Organization, 2025). É notável que no site da OMS há poucas informações a respeito da saúde mental das pessoas com obesidade. Em uma revisão sistemática recente, a obesidade foi associada a maior risco de problemas de saúde mental e pior qualidade de vida, e essa associação foi ainda maior em pessoas com perfil metabólico mais saudável (Abiri et al, 2022). Assim, a obesidade se configura como um fator de risco importante para a saúde da pessoa como um todo, seja em aspectos físicos, seja em aspectos mentais ou, ainda, na interação entre estes fatores. Nesse contexto, o psicodiagnóstico apresenta-se como ferramenta valiosa para identificar dinâmicas psíquicas implicadas no sofrimento, favorecendo intervenções clínicas personalizadas. A integração de tratamentos interdisciplinares — que articulam abordagens psicológicas, nutricionais e médicas — tem se mostrado eficaz em nossa pesquisa em processos de emagrecimento desde que sustentado por uma transformação decorrente de processos psicoterapêuticos. Este estudo apresenta a evolução psicológica de um paciente com obesidade severa submetido a tratamento interdisciplinar, avaliado em três momentos por meio do Sistema de Avaliação por Performance do Rorschach (R-PAS; Meyer et al., 2011/2017) e por desenhos no primeiro ano.
Objetivo, hipótese e perguntas de pesquisa: O objetivo do estudo é analisar as mudanças subjetivas e estruturais na personalidade de um paciente com obesidade severa ao longo de um tratamento interdisciplinar intensivo, por meio do R-PAS e de desenhos. Hipótese: Uma abordagem interdisciplinar, que inclua psicodiagnóstico, psicoterapia, acompanhamento nutricional e atividades físicas, pode gerar transformações na organização psíquica e na relação do paciente com seu corpo e sua história emocional. Perguntas de pesquisa: (1) Quais são as principais mudanças observadas na organização subjetiva do paciente ao longo do tratamento? (2) Quais indicadores projetivos permitem evidenciar tais mudanças? (3) De que maneira se modifica a relação do paciente com seu corpo, sua sexualidade e seus vínculos a partir do tratamento?
Método: Utilizou-se uma abordagem qualitativa e clínica, centrada no estudo de caso. O paciente John (nome fictício), um homem de 42 anos com obesidade severa (peso inicial de 169,5 kg), foi avaliado em três momentos ao longo de dois anos: Primeira avaliação (agosto de 2022): início do tratamento. Segunda avaliação (agosto de 2023): fase intermediária, com redução significativa de peso (emagreceu 88,4 kg). Terceira avaliação (setembro de 2024): fase de estabilização. Instrumentos: Rorschach Sistema de Avaliação por Performance (R-PAS; Meyer et al. 2011/2017); analisaremos uma resposta à prancha II a título de exemplo. Registros clínicos interdisciplinares (psiquiatria, nutrição, terapia em grupo). Projeto aprovado por Comitê de ética em Pesquisas com Seres Humanos (CAAE: 85998224.2.0000.5561) da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) da Plataforma Brasil.
Resultados do trabalho: Os resultados revelam uma progressiva reorganização psicológica de John. No primeiro protocolo em 2022, observou-se CT alto (Rotação de cartão, que pode ser relacionado a ansiedade), pensamento desorganizado (variáveis de pensamento, explicadas mais abaixo EII-3, TP-Comp, WSumCog, SevCog), distorções perceptivas (FQ-%, WD%-, ambas relacionadas a percepção inadequada das formas das manchas), baixa autoestima e dependência oral (ODL=4). Os conteúdos humanos apareceram distorcidos (PHR, H), com uso limitado de recursos afetivos (C=1 fornecido na prancha IX com FQ-, FC=1 na prancha X). Na prancha II, John forneceu as seguintes respostas: ^ < v. Eu nunca fiz esse tipo de exercício, aqui você vai ^ achar estranho presto muito atenção aos detalhes, quanto mais olho parecem dois ursos de mãos dadas. E duas pessoas agachadas de mãos dadas e o que representa para mim é a amizade e os detalhes parecem ser macacos nas costas dele. Fase de Esclarecimento (FE) – Examinador repete a resposta (ERR): Dois ursos com as mãos juntas com outro. Na outra resposta esclarece: E: (ERR) R: mãos juntas, exatamente (pessoas...) no mesmo lugar dos ursos (amizade...) as duas pessoas agachadas com as mãos juntas representa amizade e companheirismo (macacos ...) rosto de macacos nas costas das duas pessoas, nas costas das duas pessoas. (@ D 1 A Sy 2 o P Mp FAB1 PHR e D 1 H, Ad Sy 2 u Mp INC2 ABS, COP PHR).
No segundo protocolo de 2023, John continuou demonstrando ansiedade (CT). Observou-se redução dos indicadores de alterações de pensamento, com a diminuição de um desvio-padrão em variáveis relacionadas a pensamento, como EII-3 (Índice de enfraquecimento de ego, compreendida como uma medida de banda larga de psicopatologia), TP-Comp (Composto de Percepção e Pensamento, relacionado aos problemas de pensamento), WSumCog (Soma ponderada dos códigos especiais cognitivos, relacionado a dificuldades nos processos de pensamento), e de dois desvios-padrão em SevCog (Códigos severos, que seriam indicativas de dificuldades mais graves relacionadas ao pensamento). Houve redução de PHR (Representação humana empobrecida) em um desvio-padrão, mas aumento de M- (respostas de movimento humano distorcidas), com MOR (conteúdo mórbido) na média. Houve diminuição de ODL=1 indicando possivelmente redução de dependência emocional. Seguem-se as respostas de John à Prancha II: ^ v ^ (coloca a prancha na mesa) Para mim parece dois ursos de mãos dadas, um de frente do outro, é normal querer lembrar o que eu vi um ano atrás? (risos) o normal é ver o que eu vejo hoje né (sim). V ^ v de ponta cabeça parece vulcão em erupção, um buraco no meio e manchas vermelhas aqui parece um vulcão em erupção. FE - ERR: E agachados e as mãos juntas (agachado?) porque aparentemente para mim parece essa dobra aqui, os pés e a dobra (@ D6 A Sy 2 o P Mp FAB1, DV1); O centro no meio e saindo as larvas (?) porque você vê o vermelho embaixo e vem para dentro da rocha, a metade é um vazio e sai pela explosão (@ v W SI NC, Ex Vg u ma,C DV1). Na terceira avaliação de John, de 2024, seu protocolo revelou alta ansiedade com necessidade de contenção das respostas por parte do examinador (Pu). Observou-se bom engajamento e processamento cognitivo (MC e M), e apresentou problemas severos de percepção e pensamento (TP-Comp, FQ-%, EII-e, WSumCog, WD-%) e aumento de pensamentos periféricos relacionados a estresse situacional (m, movimento inanimado). Contudo, notou-se melhora significativa na representação de si e de outras pessoas. Manteve baixa dependência emocional (ODL=1), já observada na avaliação anterior. Nesta ocasião, estas foram suas respostas dadas à Prancha II: ^ v ^ Engraçado, aqui parece dois ursos agachados com as mãos juntas. E ao mesmo tempo, nas costas dele, parece duas caras de macaco, nos dois deles ainda e aqui só isso mesmo pra mim. FE - ERR: Dois ursos agachados com as mãos juntas assim (@ D6 A Sy 2 o Mp FAB1 PER). ERR: Faz parte das costas dele! O que me veio à cabeça, me veio o filme do planeta dos macacos e é muito parecido o formato da cabeça do macaco parece demais. Nesta resposta, ele disse que as “caras de macaco”, “nas costas dele”, “faz parte das costas deles”, confirmado na FE.
Com relação às respostas dadas às pranchas II, os “dois ursos de mãos dadas” apareceram nas três respostas. Foi um conteúdo estável nas suas respostas ao longo do tempo, marcadamente relacional e que evoca interação, laço e reconhecimento mútuo. A configuração dos ursos agachados também se mantém entre as respostas, sugerindo uma imagem corporal internalizada, talvez associada a uma posição de contenção, humildade ou entrega. A primeira resposta é rica em detalhes e revela capacidade associativa: além da dupla central, há “macacos nas costas”, um elemento inusitado e simbólico que pode sugerir peso, vigilância ou até conteúdos inconscientes projetados. A ideia de amizade é explicitada, atribuindo valor positivo à cena. Um ano depois, a resposta se torna mais reflexiva. Há uma auto-observação (“é normal querer lembrar o que eu vi um ano atrás?”) e uma ampliação temática com interpretação do centro como vulcão em erupção, sugerindo forças internas explosivas, potencialmente ligadas ao afeto reprimido ou pulsão emergente. O uso da linguagem se torna mais simbólica e até poética (“o vermelho embaixo vem para dentro da rocha”). Após dois anos, John se volta ao tema dos ursos, mas elabora ainda mais os detalhes de “macacos nas costas”, relacionando-os ao filme Planeta dos Macacos. Isso mostra conexão com imagens culturais e memória afetiva, e, novamente, elementos do inconsciente se manifestam em forma projetiva. A cena parece ganhar mais densidade simbólica, talvez indicando processamento mais maduro de conteúdos anteriores.
John participou de um ateliê de desenho de livre expressão. Em seu primeiro desenho, contou que a cor – ausente - para ele não importava e desenhou uma igreja. Neste desenho, há pouca perspectiva nas formas, incongruência entre as dimensões de uma imagem esquemática vista de cima com elementos vistos de frente. Mostrou percepção distorcida sem se dar conta das descontinuidades. O afeto aparece no relato verbal em relação às pessoas queridas e à igreja. Seu primeiro desenho pode ser visto na figura 1.
Referências
Abiri, B., Hosseinpanah, F., Banihashem, S., Madinehzad, S. A., & Valizadeh, M. (2022). Mental health and quality of life in different obesity phenotypes: a systematic review. Health and quality of life outcomes, 20(1), 63. https://doi.org/10.1186/s12955-022-01974-2
Meyer, G. J., Viglione, D. J., Mihura, J. L., Erard, R. E. & Erdberg, P. (2017). R-PAS: Sistema de Avaliação por Performance no Rorschach. [D. R. Silva & F. K. Miguel, Trads.] São Paulo: Hogrefe. (Obra original publicada em 2011).
Mihura, J. L., & Meyer, G. J. (2018). Using the Rorschach Performance Assessment System (R-PAS). Guilford Press.
World Health Organization. (2025, 7 de maio). Obesity and overweight. Recuperado em 19 de novembro de 2025, de https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight
(1) Livre-Docente, Universidade de São Paulo, antunez@usp.br
(2) Doutora em Ciências, Universidade Federal de São Paulo, j.santoantonio@unifesp.br
(3) Psicóloga, Centro Terapêutico Ravenna Brasil, fedepaola2001@hotmail.com
(4) Doutora em Ciências, Universidade de São Paulo, thaismarques@gmail.com
(5) Diretora, Psicanalista, Centro Terapêutico Ravenna Brasil, moemabarbosa1@gmail.com
Figura 1: desenho realizado no início do tratamento (2022).
Um ano depois, após emagrecer 88,4 quilos, John fez um desenho com círculos coloridos, com composição estética ousada com a utilização - pela primeira vez na vida - do compasso; surpreendeu-se por improvisar, tanto no uso de cores como das formas. Fez uma linha inacabada que ele associou a uma abertura ao devir, sem a necessidade de preencher todos os espaços. Este segundo desenho pode ser observado na Figura 2.
Figura 2: desenho realizado após um ano de tratamento (2023).
Após esse primeiro ano de tratamento a psiquiatra percebeu que ele apresentava sintomas psicóticos e acreditava que uma medicação antipsicótica leve poderia ajudá-lo. Em discussão interdisciplinar, decidiu-se por não o medicar. O R-PAS mostrou que a percepção da psiquiatra estava de acordo com os achados de distorções da percepção da realidade e alterações de pensamento. Os aspectos positivos apareceram em narrativas clínicas da equipe multidisciplinar, que informou melhora na atividade sexual, seguimento de prática de exercícios físicos, melhora da relação com a própria paternidade e maior autonomia emocional.
Discussão: À luz do R-PAS e de uma análise qualitativa da prancha II e dos desenhos, compreende-se a obesidade severa não apenas como condição orgânica, mas como expressão de conflitos emocionais, relacionais e de autoimagem. O caso de John ilustra como o tratamento interdisciplinar, ao abordar corpo e subjetividade, pode promover profundas transformações. O estudo dialoga com compreensões clínicas que associam pessoas com obesidade a experiências precoces de desamparo, alguns se referem a abuso, expectativas parentais e uso do corpo como meio de expressão do sofrimento psíquico. Como contribuição, este trabalho demonstra que o R-PAS é ferramenta sensível para captar mudanças sutis na organização subjetiva, reforçando sua utilidade clínica em contextos interdisciplinares. Como limitações, destaca-se a unicidade do caso e a ausência de seguimento em longo prazo. Contudo, ressalta-se seu valor heurístico e formativo para futuras pesquisas e intervenções.
Considerações finais: A hipótese central, de que uma abordagem interdisciplinar pode promover transformações significativas na organização psíquica e na relação do paciente com seu corpo e história emocional, foi confirmada ao longo do estudo, com base em dados perceptivos, projetivos e de desempenho (R-PAS), psicoterapias de orientação psicanalítica e registros interdisciplinares. As três perguntas de pesquisa foram respondidas, a saber: (1) As mudanças na organização subjetiva do paciente foram descritas em profundidade, evidenciando uma trajetória de reorganização emocional e cognitiva; (2) Os indicadores projetivos utilizados permitiram demonstrar tais transformações de maneira técnica e fundamentada; (3) A modificação na relação do paciente com seu corpo, sexualidade e vínculos foi abordada tanto em termos quantitativos (redução de peso e indicadores projetivos) quanto qualitativos (relatos clínicos). Concluímos que a confiança no tratamento multiprofissional facilitou a inovação nas atividades de desenho com menor receio a críticas, maior flexibilidade e um contato com uma experiência estética mais elaborada. Observa-se maior apropriação de recursos emocionais que possibilitam o contato com aspectos mais integrados, observados no R-PAS, bem como imagens de vulcão em erupção, reveladoras de sua impulsividade, mesmo em pranchas monocromáticas. Emagrecer 88,4 quilos em um ano é o resultado de uma aliança terapêutica significativa entre ele e a equipe de psicólogos, trabalhando em interdisciplinaridade com nutricionistas, principalmente em psicoterapia, atividades esportivas e participação em atendimentos grupais. Este caso mostra como foi possível prescindir de indicação para uma operação bariátrica, medicamentos antidepressivos ou antipsicóticos, desde que exista duplo investimento e recíproco entre John e a equipe do Centro Terapêutico Máximo Ravenna do Brasil, que valoriza a redução da alimentação calórica, cuidados nutricionais, esportivos e psicoterapêuticos.